Aleitamento humano como direito sexual e reprodutivo

Neste artigo muito especial sobre o “Aleitamento Humano como Direito Sexual e Reprodutivo”, nós falamos sobre a composição do leite humano, a vantagem da amamentação, o primeiro caso registrado de indução de lactação em uma mulher trans e os protocolos para a indução de lactação (em pessoas cis e trans)!

Texto elaborado por Marina Van Moorsel, Vivian Avelino-Silva e Kely Carvalho em 26 de setembro de 2022

O leite humano é, comprovadamente, o melhor alimento para recém-nascides e bebês. A Organização Mundial da Saúde (OMS), endossada pelo Ministério da Saúde do Brasil, recomenda o aleitamento por dois anos ou mais, sendo de forma exclusiva nos primeiros seis meses de vida da criança. A partir disso, inicia-se a introdução alimentar gradualmente, mantendo-se a oferta de leite humano até os dois anos. 

Caso você deseje saber todas as recomendações da OMS, acesse:https://www.linkedin.com/embeds/publishingEmbed.html?articleId=8397114612558756946&li_theme=light

Composição do leite humano

O leite humano é composto por proteínas, carboidratos, gordura, vitaminas, minerais, imunoglobulinas e fatores de crescimento que nutrem e auxiliam na proteção contra infecções e doenças. A composição exata do leite humano varia tanto numa mesma mamada quanto ao longo do crescimento da criança, refletindo suas necessidades nutricionais.

Vantagens da amamentação para lactantes (quem amamenta) e lactentes (bebê que se alimenta do leite humano)

São inúmeros os impactos positivos para a saúde da pessoa que amamenta:

● Amamentar é um estímulo natural à diminuição do tamanho do útero, e uma forma de reduzir o sangramento após o parto;

● Amamentar é uma forma de reduzir o risco de alguns tipos de cânceres: para o câncer de mama, cada 12 meses de amamentação reduzem em média 4,3% o risco, independentemente de idade, etnia, número de gestações e presença ou não de menopausa; para o câncer de ovário, há redução de 2% no risco a cada mês de amamentação;

● O risco de ter de diabetes tipo 2 também é menor para pessoas que amamentam, com efeito dose-resposta (quanto mais tempo de amamentação, menor o risco de diabetes);

● A amamentação tem efeito protetor na ocorrência de depressão pós-parto;

● O leite humano também é muito prático; já sai “pronto”, na temperatura certa, não envolve custos com fórmulas ou mamadeiras, e não gera materiais de descarte e lixo;

● Sabe-se também que a amamentação é uma ferramenta para desenvolvimento de vínculo entre lactante e bebê. Mas atenção: isso não significa que uma criança que recebe aleitamento artificial terá maiores dificuldades de construir vínculo afetivo com seus pais ou mães.

Para a criança, os benefícios com a amamentação também são relevantes:

● O leite humano protege a criança contra infecções comuns nessa fase da vida. As imunoglobulinas do leite, especialmente a IgA, protegem a mucosa intestinal do lactente da invasão por bactérias e outros microrganismos que podem causar doenças; os leucócitos matam os microrganismos invasores; as proteínas do soro também ajudam a matar bactérias, vírus e fungos; os oligossacarídeos (carboidratos) previnem a ligação de bactérias à superfície da mucosa; e fatores de crescimento favorecem a proliferação de bactérias “do bem” na flora intestinal;

● Estudos já constataram menor risco de desenvolver diabetes tipos 1 e 2, leucemia linfocítica aguda na infância e oclusão dentária em crianças que recebem leite humano.

● O aleitamento promove desenvolvimento do cérebro e dos músculos da face envolvidos com a sucção e deglutição;

● O leite humano também protege a criança de quadros de diarreia, e reduz a chance de desenvolvimento de asma e alergias a longo prazo.

Por ser um fator de impacto tão positivo para o crescimento e desenvolvimento saudável de bebês – além de trazer benefícios também para a pessoa lactante – o aleitamento humano é estimulado por especialistas e por organismos de saúde no mundo todo. O aleitamento é também um direito reprodutivo garantido às pessoas LGBTQIA+.

Os hormônios da lactação

A prolactina é um hormônio secretado pela hipófise anterior, glândula que fica localizada na base do nosso cérebro. Ela é responsável por estimular o desenvolvimento da glândula mamária – produtora de leite – e por induzir e manter a lactação durante o período em que a pessoa estiver amamentando. O estímulo da sucção da mama pelo bebê aumenta os níveis desse hormônio no corpo, e, consequentemente, a produção de leite.

A ocitocina é secretada pelo hipotálamo – uma pequena região localizada também no nosso cérebro – e liberada pela hipófise posterior. Ela exerce diversas ações. Em pessoas com útero e grávidas, ela desencadeia o trabalho de parto. No tecido mamário, ela induz o reflexo de saída do leite pelos ductos lactíferos.

Anatomia da mama

A estrutura da mama inclui pele, mamilo e aréola, tecido mamário, tecido conjuntivo de suporte, gordura, vasos sanguíneos e linfáticos e nervos. O tecido mamário é formado por alvéolos ou glândulas, de onde o leite é secretado, e ductos que conduzem o leite ao exterior. A mama possui de 15 a 20 lobos mamários; cada lobo mamário é formado por 20 a 40 lóbulos, contendo, cada um, de 10 a 100 alvéolos.

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Glândulas mamárias de pessoas biologicamente masculinas produzem leite?

Estudos já mostraram a presença de lactose, α-lactalbumina e lactoferrina na secreção mamária de homens cis com galactorreia associada à hiperprolactinemia (altos níveis de prolactina no sangue). Nesses estudos, as concentrações de lactose, proteínas e eletrólitos na secreção mamária desses homens estavam dentro da faixa encontrada no colostro (primeira secreção que é produzida pelas mamas após o parto) e leite obtidos de mulheres cisgêneras lactantes. Além disso, a composição dessa secreção apresentava oscilações, assim como observado no leite de glândulas de mulheres cis. Mais estudos estão sendo conduzidos a esse respeito para entender as melhores estratégias de indução hormonal da lactação.

Primeiro caso registrado de indução de lactação em uma mulher trans

No início de 2018, a revista científica Transgender Health publicou um estudo de caso intitulado “Induced Lactation in a Transgender Woman” (disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5779241/), que ganhou as manchetes em várias mídias de destaque. O artigo descrevia uma mulher trans novaiorquina que utilizou um esquema medicamentoso para induzir a lactação, e conseguiu amamentar seu filho de forma exclusiva por 6 semanas. Tal estudo foi o “primeiro relato formal na literatura médica de lactação induzida em uma mulher trans”. Apesar de ser uma descrição inédita na literatura médica, isso não era novidade para muitas pessoas da comunidade transfeminina, que há anos compartilha e discute relatos e métodos usados, fracassos e sucessos alcançados na amamentação de seus bebês. 

Protocolos de indução de lactação (indicados para pessoas cis e trans)

Os protocolos para indução da lactação vêm sendo aprimorados desde a década de 1970, e utilizam tanto métodos farmacológicos (medicamentos) quanto não farmacológicos, a depender do tempo disponível até o parto. Dentre os métodos farmacológicos, os mais utilizados são as drogas galactogogas, que aumentam a prolactina, e o contraceptivo hormonal para estimular o desenvolvimento das glândulas mamárias. Já os não farmacológicos incluem produtos herbáceos (como feno grego, cardo santo, moringa e extrato de algodoeiro), estimulação repetida do mamilo (sucção) semanas antes do parto e de preferência com a bomba elétrica, e a translactação após o nascimento do bebê. A translactação consiste em colocar o bebê ao peito para mamar o leite da pessoa lactante retirado previamente, ou a fórmula, através de uma sonda (tubinho) colocada próxima ao mamilo.

Nesses casos, é importante que haja acompanhamento especializado durante a gestação e a amamentação, tanto para assegurar o bem-estar da pessoa lactante quanto a nutrição do bebê. Muitas vezes, é necessário o acompanhamento multiprofissional com especialistas da medicina, enfermagem, fonoaudiologia, consultores de lactação e outros. Como mencionamos acima, os protocolos para indução da lactação vêm sendo aprimorados para ampliar a segurança e efetividade dessa alternativa para bebês e lactantes.

Homens trans, pessoas não binárias, mulheres cis que não gestaram e a amamentação humana

Mulheres cis que não gestaram podem desejar ser lactantes, e esse desejo deve ser respeitado e acolhido, oferecendo-se suporte profissional tecnicamente qualificado para que esse desejo possa ser concretizado.

A manutenção da capacidade para amamentar por homens trans e pessoas não binárias, que gestaram ou não, também deve ser discutida, respeitando-se as preferências, expectativas e desejos da pessoa, bem como riscos envolvidos.

Para pessoas que realizam hormonioterapia com testosterona, apesar desse hormônio não se apresentar em quantidades significativas no leite humano nem demonstrar impacto na saúde de bebês em curto prazo, recomenda-se manter suspensa sua aplicação durante a amamentação pelo risco de reduzir a produção de leite humano. Além disso, sabe-se que a prática de binding (compressão do peito com faixas, curativos ou roupas apertadas para atenuar o volume das mamas) pode causar atrofia por compressão das glândulas mamárias, gerando dores e ingurgitamento (“empedramento”) nas mamas, posteriormente diminuindo a produção de leite e dificultando o aleitamento.  

O aleitamento é um direito, que deve ser garantido a todas as pessoas!

Referências

  • Aleitamento Materno: Aspectos Gerais. Medicina Ambulatorial – Condutas de Atenção Primária Baseada em Evidências. Bruce B. Duncan, Maria Inês Schimidt, Elsa R.J. Giugliani. 4ª Edição, 2013. ARTMED. 
  • Ciasca SV, Hercowitz A, Junior AL. Saúde LGBTQIA+: práticas de cuidado transdisciplinar. [Insert Publisher Location]: Editora Manole; 2021.
  • Ferri RL, Rosen-Carole CB, Jackson J, Carreno-Rijo E, Greenberg KB; Academy of Breastfeeding Medicine. ABM Clinical Protocol #33: Lactation Care for Lesbian, Gay, Bisexual, Transgender, Queer, Questioning, Plus Patients. Breastfeed Med. 2020 May;15(5):284-293. doi: 10.1089/bfm.2020.29152.rlf. Epub 2020 Apr 24. PMID: 32330392.
  • Kulski JK, Hartmann PE, Gutteridge DH. Composition of breast fluid of a man with galactorrhea and hyperprolactinaemia. J Clin Endocrinol Metab. 1981 Mar;52(3):581-2. doi: 10.1210/jcem-52-3-581. PMID: 7462406.
  • Reisman T, Goldstein Z. Case Report: Induced Lactation in a Transgender Woman. Transgend Health. 2018 Jan 1;3(1):24-26. doi: 10.1089/trgh.2017.0044. PMID: 29372185; PMCID: PMC5779241.